Proposta de redação: o potencial (in)formativo da educação

O texto dissertativo, muito usado em provas de vestibulares, consiste em um gênero discursivo que reúne argumentos a partir de referências socioculturais informativas em defesa de um ponto de vista. Embora seus critérios corretivos/avaliativos possam variar de acordo com as exigências de cada universidade, sua funcionalidade, em geral, propõe-se a levar a opinião do autor. ENEM, FUVEST, UNESP, UNICAMP, UFSC e UDESC são alguns dos vestibulares que cobram dissertações.

A temática, sugerida pela Studos, em parceria com o professor Everaldo Radlinski, sobre o potencial (in)formativo da educação possui extrema relevância. Sendo assim, optamos por suscitar uma produção textual acerca das funções de ensino que o Estado e a família exercem no âmbito educacional e acerca da pluralidade de ideais que a escola outorga democraticamente em contraposição ao totalitarismo.

No que concerne à proposta, pode-se associar o texto 1 ao caráter ideológico da escola, que entra em embate com as ideologias as quais os alunos trajam em casa, próprias de seu vestuário cultural. Uma vez que a escola representa o Estado, é possível considerar esses conflitos como confrontos de desigualdades entre o Estado e a família. Ademais, outra interpretação possível é a de que os jovens crescem em um ambiente hostil e encontram, no ambiente escolar, uma espécie de refúgio.

Já o texto 2 apresenta um excerto sobre a Constituição Federal, que reforça a necessidade da solidariedade entre a escola e a família. Vale salientar que os responsáveis precisam atuar na vida escolar por meio da escolha do ambiente no qual o aluno será inserido, ou seja, o da seleção do material didático e o das reuniões de pais e afins. Entretanto, num contexto de Escola sem Partido, a participação dos pais tende a transformar-se em uma espécie de tolhimento e resulta no afastamento entre os filhos e a educação.

O texto 3, por sua vez, corrobora com o conceito de pedagogia libertadora, isto é, uma educação crítica e transformadora. Nesse sentido, o ensino não deve ser tratado meramente como um produto, com um papel mecanicista, técnico, conteudista e esvaziado de sentido. Em seu lugar, as relações plurais, contidas no ambiente escolar, devem ser valorizadas, de modo que se proponha uma educação intencionada e produtora de sentido, adaptada aos diferentes contextos e vieses nos quais o educador pode atuar.

De maneira irônica, por fim, o texto 4 resume todas as informações contidas nos fragmentos anteriores, típica da charge! Salienta-se que nem sempre estudar é prazeroso, mas, por ser enriquecedor, torna-se um esforço necessário. Aqui, entra o papel (in)formativo da educação: deve-se pensá-la de modo que produza significado, com o intento de aproximar-se da realidade do aluno e, para aprendizagens com valores, instigue, assim, sua aproximação do ambiente escolar.

A frase do filósofo Fernando Savater aborda a relação entre família e Estado de forma sucinta e cirúrgica, enquanto a reportagem sequencial interpela o tópico sob uma perspectiva jurídica e legislativa. Em contrapartida, o fragmento de “Pedagogia do oprimido” concede autoridade ao tema, tendo em vista que Paulo Freire foi oficialmente considerado o patrono da educação brasileira. Por último, a charge de Quino ilustra e satiriza o assunto.

Além da proposta e dos textos motivadores, este material abrange diversos exemplos de referencial sociocultural-informativo para dar suporte às produções textuais que serão feitas a partir dele. Os textos motivadores escolhidos dão respaldo para que o aluno construa sua dissertação seguindo diferentes direções. Salienta-se a importância de ler o material na íntegra e exercitar a escrita ao final.

Considere os excertos e as imagens abaixo, reflita e redija uma dissertação sobre o potencial (in)formativo da educação.

Texto 1

 “Um dos primeiros objetivos da escola é preservar os filhos de seus pais.”

Fernando Savater – Filósofo espanhol em visita a Porto Alegre/RS/2015

Texto 2

A prática do homeschooling, ou ensino doméstico, aumentou 916% entre 2011 e 2016 no Brasil | Pixabay

Para o ministro Alexandre de Moraes, a Constituição Federal, em seus artigos 205 e 227, prevê a solidariedade do Estado e da família no dever de cuidar da educação das crianças. Já o artigo 226 garante liberdade aos pais para estabelecer o planejamento familiar. Segundo ele, o texto constitucional visou colocar a família e o Estado juntos para alcançar uma educação cada vez melhor para as novas gerações. Só Estados totalitários, segundo o ministro Alexandre, afastam a família da educação de seus filhos.

https://www.gazetadopovo.com.br

Texto 3

A educação que se impõe aos que verdadeiramente se comprometem com a libertação não pode fundar-se numa compreensão dos homens como seres “vazios” a quem o mundo “encha” de conteúdos; não pode basear-se numa consciência especializada, mecanicistamente compartimentada, mas nos homens como “corpos conscientes” e na consciência como consciência intencionada ao mundo. Não pode ser a do depósito de conteúdos, mas a da problematização dos homens em suas relações com o mundo. 

Pedagogia do oprimido, Paulo Freire.

Texto 4

proposta de redação

Fonte: Quino, 2003.

Plus ao quadrado:

1. Baixa – Ou Brainstorm – sobre o Comando da Proposta

Arranjos possíveis a partir da chuva de ideias:

TEMA (eixo central do texto):

A energia (in)formativa do ensino-aprendizagem

RETOMADA DO TEMA (eixo central do texto):

A força de elucidação educacional

2.            Divisão de tema – Ou expectativas/abordagens possíveis

Quatro tópicos frasais possíveis a partir dos textos motivadores:

1.ª … protagoniza/constitui a escola como ambiente propício ao desenvolvimento do sujeito.

2.ª … acentua a corresponsabilidade entre família e Estado.

3.ª … oxigena a libertação do homem de sua desumanidade.

4.ª … suplica pela criação de significados condizentes à realidade dos alunos. 

Referencial sociocultural-informativo – Método Radlinski

Argumento por fato exemplo

proposta de redação

Profissionais da educação fizeram um protesto no Centro de São Paulo, nesta segunda-feira (8), contra o retorno das aulas presenciais.

Os manifestantes se reuniram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, na Zona Oeste da capital, e na Praça do Patriarca, na região Central.

Os manifestantes protestam pelos direitos das mulheres e denunciaram os casos de Covid-19 nas escolas. Segundo a organização, 89 educadores morreram vítima da doença.

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2021/03/08/profissionais-da-educacao-protestam-contra-o-retorno-das-aulas-presenciais-no-centro-de-sp.ghtml

Argumento por fato exemplo

O Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) criticou por meio de nota nesta terça-feira (2), o que chamou de “defesa da suspensão das atividades presenciais de todos os níveis da educação do país”. A manifestação do Consed ocorre um dia após o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) pedir a suspensão do funcionamento das escolas, entre outras medidas, para conter o avanço da pandemia no Brasil.

https://noticias.r7.com/educacao/secretarios-de-educacao-criticam-suspensao-de-aulas-presenciais-02032021

Argumento por fato exemplo

Volta às aulas

A sala de aula em tempos de pandemia

proposta de redação

Se a socialização é um fator importante na vida escolar dos alunos, um grande número de colegas, na mesma sala de aula, tende a ser contraproducente no aprendizado. O limite de alunos dentro do “razoável” é uma prática indicada pela grande maioria dos educadores e pesquisadores da área.

Na Nossa Escola, a concepção pedagógica preza pela aprendizagem individualizada. O professor, da educação infantil até o médio, acompanha, por meio das atividades e da participação, o desenvolvimento de cada aluno e usa esses dados para que eles alcancem as habilidades previstas. Diante disso, as turmas no Ensino Fundamental e Médio recebem, no máximo, 30 alunos.

https://g1.globo.com/se/sergipe/especial-publicitario/nossa-escola/nossa-escola-educacao-por-inteiro/noticia/2021/03/09/volta-as-aulas.ghtml

Argumento por ilustração

Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Rubem Alves, escritor.

Argumento por ilustração fictícia

Educar é viajar no mundo do outro, sem nunca penetrar nele. É usar o que passamos para nos transformar no que somos.

Augusto Cury, escritor contemporâneo.

Argumento por autoridade

“O propósito da educação é mostrar às pessoas como aprender por si mesmas. O outro conceito de educação é doutrinação.”

Noam Chomsky, linguista.

Argumento por autoridade

Tudo o que é enraizado e congênito pode ser atenuado pela educação, mas não vencido.

Sêneca, filósofo estoico.

Argumento por autoridade

Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

Paulo Freire, patrono da educação brasileira.

Argumento histórico

A história da educação no Brasil começou em 1549 com a chegada dos primeiros padres jesuítas, inaugurando uma fase que haveria de deixar marcas profundas na cultura e civilização do país. Movidos por intenso sentimento religioso de propagação da fé cristã, durante mais de 200 anos, os jesuítas foram praticamente os únicos educadores do Brasil.

Embora os Parâmetros Curriculares Nacionais estejam sendo usados como norma de ação, nossa educação só teve caráter nacional no período da Educação jesuítica. Após isso o que se presenciou foi o caos e muitas propostas desencontradas que pouco contribuíram para o desenvolvimento da qualidade da educação oferecida.

É provável que estejamos próximos de uma nova ruptura. E esperamos que ela venha com propostas desvinculadas do modelo europeu de educação, criando soluções novas em respeito às características brasileiras. Como fizeram os países do bloco conhecidos como Tigres Asiáticos, que buscaram soluções para seu desenvolvimento econômico investindo em educação. Ou como fez Cuba que, por decisão política de governo, erradicou o analfabetismo em apenas um ano e trouxe para a sala de aula todos os cidadãos cubanos.

Confira mais propostas de redação para trabalhar com os seus alunos:

Os significados da rotina no pulsar da vida humana

Comunicação humana e a cultura do cancelamento